......Como nos tempos idos, ao iniciarmos esta jornada gostaria de pedir ao leitor que se imagine – já que sem imaginação não há conhecimento –, em numa noite de inverno, fria e escura, numa velha fazenda, ao lado de um borralho com a lenha acesa e uma velha avó contando histórias. Talvez seja esse o primeiro passo para se acordar a imaginação. Foi assim que cresci, ouvindo as histórias de minha avó e da Nega Júlia, minha contadora de histórias predileta.
Contava ela: Era Uma Vez..., e com estas mágicas palavras nossa imaginação divagava por caminhos longínquos, para retornar muitas vezes com ... e foram felizes para sempre!

Mas, de onde vem este mundo dos contos, das histórias?

......Existem muitas histórias sobre a teoria das histórias e muitas lendas sobre a arte de contar histórias. Pode ter surgido por pura diversão e entretenimento ou como meio de explicar os fenômenos do seu tempo; como forma de reverência ao sobrenatural ou até mesmo pela necessidade de compartilhar com os outros, experiências do sagrado. O que sabemos é que o homem atravessou a linha do tempo e dessa trajetória trouxe as cavernas, as pirâmides, as densas floresta, as longas estradas, pirâmides, mares e a arte de contar estas histórias.

......Independentemente de sua origem, a arte de contar histórias encontrar-se arraigada no interior do humano. Essa arte, enquanto tarefa, envolve o despertar da imaginação criadora, pois o coração de todas as tradições repousa na imaginação de seu povo. Hoje não há mais borralhos, tampouco, aquela velha avó que ao pé do borralho gostava de contar lindas histórias. Lembro-me que minha avó gostava de estar em meio às pessoas. Ela sempre tinha no fogão, a lenha queimando. Quando alguém chegava, ela colocava a chaleira com água pra ferver, retirava do armário um coador de pano já encardido pelo pó do café e seu alto suporte de ferro. Enquanto proseavam, ela mesma moia os grãos do café, quando a água entrava em ebulição ela jogava o pó. O aroma incensava a casa e espalhava-se até a casa do caseiro, que dizia: “Cumade Sinhá ta cum visita, contando e ouvindo histórias”.

......Hoje fico pensando na disponibilidade dos homens modernos para este ritual. Sabemos que é de bom tom, oferecer um cafezinho às nossas visitas, então, quando alguém chega em nossa casa pegamos a cafeteira elétrica, enchemos até a marca X de pó, até a marca Y enchemos de água, ligamos na tomada elétrica, toca o telefone você atende, seu filho te chama e você ralha com ele dizendo: fica quieto menino, não ta vendo que estou no telefone! Enquanto fala no telefone, tira do freezer o jantar, aciona o timer do micro-ondas, e, a nossa visita ao acompanhar este “ritual” resignadamente levanta e vai embora. Pronto... Perdemos a oportunidade de encantarmo-nos com a nossa própria palavra. Para não tocar na renuncia da solidão. Certamente deixamos de nos enredarmos nas nossas próprias histórias. Perdemos, portanto essa maravilhosa condição de ir e vir, de voltar e tornar a voltar às nossas histórias, e mais perdemos a possibilidade de mudar de lugar e olhar, como dizem os psicodramatistas, ora daqui, ora dali, por todos os lados, por vários ângulos. Perdemos os vários olhares; perdemos a nossa ancestralidade.

......Precisamos desenvolver o exercício de invocar emoções, intuindo as imagens com energia e significados maiores. O contador de histórias moderno, precisa desenvolve um profundo entendimento dos símbolos e das pessoas, além de um agudo senso de seletividade e discernimento no compartilhar de cada história.

......A magia de contar história consiste na capacidade que as histórias têm de expandir a percepção, aumentar o esclarecimento e os estados sobrenaturais da consciência. Qualquer um que tenha experimentado meditação orientada conhece a forma mágica do ouvir histórias. Contar histórias é como uma paisagem. Assim como a meditação se utiliza de imagens e cenários para conseguir determinados efeitos. Esta imagens oferecidas pelas passagens do conto nos tocam em lugares especiais, nos tocam no mundo interno.

......O ritual de contação de histórias desperta aquela parte interior que ainda lembra e reconhece as energias sutis desses jogos da vida. O encanto leva-nos a tornarmo-nos crianças novamente. Para a criança todas as coisas estão vivas. As pedras estão vivas e os rios falam em sua gorgolejante linguagem e fazem suas águas fluírem, porque assim o desejam. Os animais pensam e têm espírito. Apesar de os adultos afirmarem o contrário, a criança entende o mundo de seu jeito particular. Diferente do adulto. Para elas, as coisas podem agir e sentir. Infelizmente, esses entendimentos vão morrendo com o tempo e dando lugar muitas vezes a uma razão objetiva e cruel do mundo adultocêntrico.

......A arte da Palavra tem o poder de reavivar as emoções de nosso mundo interior, despertar sentimentos adormecidos, estimular a compaixão e a solidariedade, traz sabedoria e perspicácia, aviva a imaginação. Encoraja-nos a acreditar que a as pequeninas ações são importantes. As histórias, inclusive nos alertam para a responsabilidade de agirmos em determinadas circunstancias e atribui um profundo significado com o axioma: o mal prospera quando as pessoas boas nada fazem. A arte de Contar e Ouvir História tem a ver com a Palavra, com poesia e com a Prece, enfim com a oração!

......O processo de escuta de uma história pode nos ajudar, a encontrar soluções para problemas, inquietações, confusões, temores. Os processos internos do ouvinte se revelam e se tornam mais compreensivos com o desenrolar de uma história, e aí reside a possibilidade de resolução de conflitos. Isso auxilia a traduzir realidades mentais em imagens que, por sua vez, trazem discernimento. As interpretações simbólicas, dos contos, podem nos preparar para enxergar verdades ocultas e a existência de muitos padrões dirigindo-os para uma percepção mais qualitativa. Embora existam muitas interpretações sobre os contos, devemos lembrar que cada conto, que os mitos e as lendas, têm um potencial de ressonância único em cada indivíduo, pois que cada pessoa está em um instante de desenvolvimento: mental, emocional, intelectual, cultural. Momento único e muito particular. E é aí que ela, a história, revela sua verdadeira força, uma vez que tem potencialidade de falar à alma humana, de tocar a essência das coisas, independentemente de lugar, faixa etária, credo, raça. Os Contos de Tradição oral são uma obra de arte como todas as outras. Tocam cada um particularmente.

CONTAR HISTÓRIAS.

......Qualquer um pode contar histórias. É do humano a prerrogativa da plavra. Entretanto os contadores de histórias mais antigos, os bardos, impregnavam a o conto com imagens ricamente detalhadas, com o intuito de produzir efeitos especiais na mente de quem os ouvissem. Depois de muito meditarem, sobre a história que seria narrada, discursavam de maneira condizente à audiência, ou seja, procuravam “ falar a língua” dos ouvintes a partir dos olhos da imaginação, para posteriormente conduzir o espírito dos mesmos para muito bem onde ele, o contador de história queria. Um eficiente contador de história freqüentemente descreve, através de imagens e ações as personagens, o estado interno de consciência, o caráter dos mesmos. A história passa a ser, então um espelho que reflete aspectos específicos do mundo inteiro. Considerada, por muitos, uma arte interpretativa, a arte de contar histórias, pode ser aplicada em todas a profissões, além de ser utilizada também para restabelecer a harmonia, ilustrar questões, informar, criar um tipo de humor e gerar clímax. É uma forma estética e espiritual de comunicação que muda de acordo com as circunstâncias do conto.

......Existem grandes variedades de material, à disposição dos que desejam saber sobre o assunto. Quanto mais histórias conhecer, maior será a ressonância com a audiência. Existem inúmeros mitos, lendas, épicos, fábulas, parábolas, anedotas, folclores e contos de fadas para se pesquisar, mas o ideal mesmo é como diz Clarissa Pinkola Estes, “...dormir com a história até que ela sangue em você” (1994:568). Assim a história será sua e você será dela, com autoridade para compartilha-la com o mundo.

......Devido a grande quantidade de material disponível, nem sempre é fácil escolher a história que melhor se adapte ao processo mágico do encantamento.
Como fazer? Comece lendo e relendo as histórias que você gostava quando criança. Certamente, houve alguma razão para a terem tocado tanto, e podem refletir energias intrínsecas à sua vida. Estude sua raça e ascendência, explore a mitologia associada à sua cultura. Se pertencer a alguma religião, explore os mitos e fábulas, que pertencem a ela. Comece escolhendo a história ligada de alguma forma à sua vida.

......Existem alguns preceitos que um Contador de Histórias necessita relevar: Primeiro escolher uma história que você sinceramente goste e depois de escolher a histórias, faça uma avaliação de suas metas. Tente compreender as pessoas que vão ouvi-lo. Identifique as principais características de suas personalidades, suas motivações, relacionamentos, objetivos e etc. Ao narrar uma história é importante que se faça uma introdução interessante. Imponha um limite de tempo cronômetrado para cinco ou sete minutos, no máximo. Veja de qual maneira esta história pode ser adaptada para diferentes tipos de audiência, levando em consideração a linguagem, o estilo e o tema.

......Esteja sempre consciente quanto ao tema que a história porta e portanto, desenvolverá. Em geral ocasiões especiais determinam o assunto. Você pode fazer uma relação de histórias sobre o mesmo assunto, ou que possam ser adaptadas a um determinado tema. Para isso é necessário que se tenha um bom arsenal de contos de tradição oral.

......A história precisa ter um inicio. Na maioria das vezes é uma simples condição do que é, quem, quando, e onde as coisas acontecem. Um incidente inicial dá o tom aos acontecimentos, levando depois ao clímax e à conclusão. Seja qual for a história decore a seqüência. O importante é que a história possa fluir sem que se repita palavra por palavra. Deve haver fluência na narração, isto manterá a história viva, utiliza-se de técnicas verbais e também não verbais, que aliás é imprescindível o corpo. A palavra ganha corpo e o gesto também! Esse processo pode parecer fácil e espontâneo, mas, como toda a arte, exige treino e prática.
Existem algumas leis que merecem consideração, na arte de contar e ouvir histórias como nos apresenta Ted Andrews em seus escritos sobre sons sagrados.

 


A Arte de contar Histórias

Design by e-websites