Mas, de onde vem este mundo dos contos, das histórias?
......Existem muitas histórias sobre a teoria das histórias e muitas lendas sobre a arte de contar histórias. Pode ter surgido por pura diversão e entretenimento ou como meio de explicar os fenômenos do seu tempo; como forma de reverência ao sobrenatural ou até mesmo pela necessidade de compartilhar com os outros, experiências do sagrado. O que sabemos é que o homem atravessou a linha do tempo e dessa trajetória trouxe as cavernas, as pirâmides, as densas floresta, as longas estradas, pirâmides, mares e a arte de contar estas histórias.
......Independentemente de sua origem, a arte de contar histórias encontrar-se arraigada no interior do humano. Essa arte, enquanto tarefa, envolve o despertar da imaginação criadora, pois o coração de todas as tradições repousa na imaginação de seu povo. Hoje não há mais borralhos, tampouco, aquela velha avó que ao pé do borralho gostava de contar lindas histórias. Lembro-me que minha avó gostava de estar em meio às pessoas. Ela sempre tinha no fogão, a lenha queimando. Quando alguém chegava, ela colocava a chaleira com água pra ferver, retirava do armário um coador de pano já encardido pelo pó do café e seu alto suporte de ferro. Enquanto proseavam, ela mesma moia os grãos do café, quando a água entrava em ebulição ela jogava o pó. O aroma incensava a casa e espalhava-se até a casa do caseiro, que dizia: “Cumade Sinhá ta cum visita, contando e ouvindo histórias”.
......Hoje fico pensando na disponibilidade dos homens modernos para este ritual. Sabemos que é de bom tom, oferecer um cafezinho às nossas visitas, então, quando alguém chega em nossa casa pegamos a cafeteira elétrica, enchemos até a marca X de pó, até a marca Y enchemos de água, ligamos na tomada elétrica, toca o telefone você atende, seu filho te chama e você ralha com ele dizendo: fica quieto menino, não ta vendo que estou no telefone! Enquanto fala no telefone, tira do freezer o jantar, aciona o timer do micro-ondas, e, a nossa visita ao acompanhar este “ritual” resignadamente levanta e vai embora. Pronto... Perdemos a oportunidade de encantarmo-nos com a nossa própria palavra. Para não tocar na renuncia da solidão. Certamente deixamos de nos enredarmos nas nossas próprias histórias. Perdemos, portanto essa maravilhosa condição de ir e vir, de voltar e tornar a voltar às nossas histórias, e mais perdemos a possibilidade de mudar de lugar e olhar, como dizem os psicodramatistas, ora daqui, ora dali, por todos os lados, por vários ângulos. Perdemos os vários olhares; perdemos a nossa ancestralidade.
......Precisamos desenvolver o exercício de invocar emoções, intuindo as imagens com energia e significados maiores. O contador de histórias moderno, precisa desenvolve um profundo entendimento dos símbolos e das pessoas, além de um agudo senso de seletividade e discernimento no compartilhar de cada história.
......A
magia de contar história consiste na capacidade que as histórias
têm de expandir a percepção, aumentar o esclarecimento
e os estados sobrenaturais da consciência. Qualquer um que tenha experimentado
meditação orientada conhece a forma mágica do ouvir histórias.
Contar histórias é como uma paisagem. Assim como a meditação
se utiliza de imagens e cenários para conseguir determinados efeitos.
Esta imagens oferecidas pelas passagens do conto nos tocam em lugares especiais,
nos tocam no mundo interno.
......O ritual de contação de histórias
desperta aquela parte interior que ainda lembra e reconhece as energias sutis
desses jogos da vida. O encanto leva-nos a tornarmo-nos crianças novamente.
Para a criança todas as coisas estão vivas. As pedras estão
vivas e os rios falam em sua gorgolejante linguagem e fazem suas águas
fluírem, porque assim o desejam. Os animais pensam e têm espírito.
Apesar de os adultos afirmarem o contrário, a criança entende
o mundo de seu jeito particular. Diferente do adulto. Para elas, as coisas
podem agir e sentir. Infelizmente, esses entendimentos vão morrendo
com o tempo e dando lugar muitas vezes a uma razão objetiva e cruel
do mundo adultocêntrico.
......A arte da Palavra tem o poder de reavivar
as emoções de nosso mundo interior, despertar sentimentos adormecidos,
estimular a compaixão e a solidariedade, traz sabedoria e perspicácia,
aviva a imaginação. Encoraja-nos a acreditar que a as pequeninas
ações são importantes. As histórias, inclusive
nos alertam para a responsabilidade de agirmos em determinadas circunstancias
e atribui um profundo significado com o axioma: o mal prospera quando as pessoas
boas nada fazem. A arte de Contar e Ouvir História tem a ver com a
Palavra, com poesia e com a Prece, enfim com a oração!
......O processo de escuta de uma história
pode nos ajudar, a encontrar soluções para problemas, inquietações,
confusões, temores. Os processos internos do ouvinte se revelam e se
tornam mais compreensivos com o desenrolar de uma história, e aí
reside a possibilidade de resolução de conflitos. Isso auxilia
a traduzir realidades mentais em imagens que, por sua vez, trazem discernimento.
As interpretações simbólicas, dos contos, podem nos preparar
para enxergar verdades ocultas e a existência de muitos padrões
dirigindo-os para uma percepção mais qualitativa. Embora existam
muitas interpretações sobre os contos, devemos lembrar que cada
conto, que os mitos e as lendas, têm um potencial de ressonância
único em cada indivíduo, pois que cada pessoa está em
um instante de desenvolvimento: mental, emocional, intelectual, cultural.
Momento único e muito particular. E é aí que ela, a história,
revela sua verdadeira força, uma vez que tem potencialidade de falar
à alma humana, de tocar a essência das coisas, independentemente
de lugar, faixa etária, credo, raça. Os Contos de Tradição
oral são uma obra de arte como todas as outras. Tocam cada um particularmente.
CONTAR HISTÓRIAS.
......Qualquer
um pode contar histórias. É do humano a prerrogativa da plavra.
Entretanto os contadores de histórias mais antigos, os bardos, impregnavam
a o conto com imagens ricamente detalhadas, com o intuito de produzir efeitos
especiais na mente de quem os ouvissem. Depois de muito meditarem, sobre a
história que seria narrada, discursavam de maneira condizente à
audiência, ou seja, procuravam “ falar a língua”
dos ouvintes a partir dos olhos da imaginação, para posteriormente
conduzir o espírito dos mesmos para muito bem onde ele, o contador
de história queria. Um eficiente contador de história freqüentemente
descreve, através de imagens e ações as personagens,
o estado interno de consciência, o caráter dos mesmos. A história
passa a ser, então um espelho que reflete aspectos específicos
do mundo inteiro. Considerada, por muitos, uma arte interpretativa, a arte
de contar histórias, pode ser aplicada em todas a profissões,
além de ser utilizada também para restabelecer a harmonia, ilustrar
questões, informar, criar um tipo de humor e gerar clímax. É
uma forma estética e espiritual de comunicação que muda
de acordo com as circunstâncias do conto.
......Existem grandes variedades de material,
à disposição dos que desejam saber sobre o assunto. Quanto
mais histórias conhecer, maior será a ressonância com
a audiência. Existem inúmeros mitos, lendas, épicos, fábulas,
parábolas, anedotas, folclores e contos de fadas para se pesquisar,
mas o ideal mesmo é como diz Clarissa Pinkola Estes, “...dormir
com a história até que ela sangue em você” (1994:568).
Assim a história será sua e você será dela, com
autoridade para compartilha-la com o mundo.
......Devido a grande quantidade de material
disponível, nem sempre é fácil escolher a história
que melhor se adapte ao processo mágico do encantamento.
Como fazer? Comece lendo e relendo as histórias que você gostava
quando criança. Certamente, houve alguma razão para a terem
tocado tanto, e podem refletir energias intrínsecas à sua vida.
Estude sua raça e ascendência, explore a mitologia associada
à sua cultura. Se pertencer a alguma religião, explore os mitos
e fábulas, que pertencem a ela. Comece escolhendo a história
ligada de alguma forma à sua vida.
......Existem alguns preceitos que um Contador
de Histórias necessita relevar: Primeiro escolher uma história
que você sinceramente goste e depois de escolher a histórias,
faça uma avaliação de suas metas. Tente compreender as
pessoas que vão ouvi-lo. Identifique as principais características
de suas personalidades, suas motivações, relacionamentos, objetivos
e etc. Ao narrar uma história é importante que se faça
uma introdução interessante. Imponha um limite de tempo cronômetrado
para cinco ou sete minutos, no máximo. Veja de qual maneira esta história
pode ser adaptada para diferentes tipos de audiência, levando em consideração
a linguagem, o estilo e o tema.
......Esteja sempre consciente quanto ao tema
que a história porta e portanto, desenvolverá. Em geral ocasiões
especiais determinam o assunto. Você pode fazer uma relação
de histórias sobre o mesmo assunto, ou que possam ser adaptadas a um
determinado tema. Para isso é necessário que se tenha um bom
arsenal de contos de tradição oral.
......A história precisa ter um inicio.
Na maioria das vezes é uma simples condição do que é,
quem, quando, e onde as coisas acontecem. Um incidente inicial dá o
tom aos acontecimentos, levando depois ao clímax e à conclusão.
Seja qual for a história decore a seqüência. O importante
é que a história possa fluir sem que se repita palavra por palavra.
Deve haver fluência na narração, isto manterá a
história viva, utiliza-se de técnicas verbais e também
não verbais, que aliás é imprescindível o corpo.
A palavra ganha corpo e o gesto também! Esse processo pode parecer
fácil e espontâneo, mas, como toda a arte, exige treino e prática.
Existem algumas leis que merecem consideração, na arte de contar
e ouvir histórias como nos apresenta Ted Andrews em seus escritos sobre
sons sagrados.